Jesus Soto e a arte do movimento
por Cristian Cancino

Se na vida não há nada em repouso e o mundo flui em movimento, a arte e o homem não deveriam ser estáticos. Esta seria uma das principais proposições da arte chamada cinética, que busca mostrar à visão um estudo do movimento em que os objetos que compõem uma obra ou superfície se deslocam, seja por ilusão ótica ou por pequenos motores acoplados.

Jesus Rafael Soto, que morreu no dia 14 de janeiro, pouco antes da abertura da exposição retrospectiva de sua obra no Centro Cultural Banco do Brasil, no Rio, foi um dos maiores expoentes dessa “ativação da arte”, como diz o curador da mostra Paulo Venâncio Filho. Para ele, a relação de Soto com os artistas brasileiros vai além das influências para “as linguagens abstratas concretas”. Assim, no CCBB há o diálogo entre Soto e obras de Lygia Clark, Hélio Oiticica, Sérgio Camargo, Ligia Pape e Willys de Castro, entre outros.

Muitos desses são artistas com quem Soto, que estava com 81 anos, conviveu durante seus primeiros anos de auto-exílio em Paris. Soto saiu da Venezuela em 1950, levando seu violão debaixo do braço. “Ele tocou em muitos bares por lá, era o que fazia pra ganhar a vida, enquanto já experimentava artisticamente, influenciado por Malevitch e Mondrian”, conta Venâncio Filho.

Para o diretor de fotografia Carlos Ebert, a arte cinética – cuja raiz da palavra é do grego kinema, a mesma que dá origem a cinema e significa movimento – tem pouca difusão no País. Mesmo assim, o artista participou de cinco Bienais de São Paulo, sendo que na última, em 1996, sua obra foi considerada uma das favoritas do público. Soto viria à abertura da mostra no Rio. Nos dias finais da montagem a equipe do CCBB já sabia da gravidade de sua saúde. As 51 obras que compõem a exposição A Construção da Imaterialidade ficam no Rio até dia 3 de abril.