Uma escola contra a escravidão
Por José Arbex Jr. (da Caros Amigos)

9 de abril, sábado. Eles são muitos, cerca de trezentos professores universitários (incluindo titulares, livres-docentes, doutores, pesquisadores renomados em suas áreas), psicanalistas, filósofos, economistas e educadores. Ocupam a sala principal da Escola Nacional Florestan Fernandes, criada e construída pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), em Guararema, a 60 quilômetros de São Paulo. A pauta é extensa: iniciar um debate com o objetivo de elaborar uma grade curricular de nível superior (graduação e pós-graduação), destinada a formar camponeses e integrantes dos mais diversos movimentos sociais. Em cinco séculos de história do Brasil, é a primeira tentativa de criação de uma universidade efetivamente popular, impulsionada pelos setores mais pobres da população e em relação de franca colaboração com a nata intelectual do país.

A sede física da escola foi construída por 1.115 sem-terra, ao longo de quatro anos e meio de trabalho oferecido por voluntários oriundos de assentamentos e acampamentos de todo o país. Sobre um terreno de 30.000 metros quadrados foram construídas instalações de tijolos de solo-cimento fabricados na própria escola. Essa técnica é agroecológica, dispensa reboco, contribui para diminuir a quantidade de ferro, aço e cimento utilizada na obra e é mais resistente e fácil de assentar. Ao todo, são três salas de aula, que comportam juntas até duzentas pessoas, um auditório e dois anfiteatros. Os recursos para a construção da escola foram obtidos com a venda do livro Terra (textos de José Saramago, músicas de Chico Buarque e fotos de Sebastião Salgado), contribuições de organizações não-governamentais (ONGs) européias e doações de amigos e amigas brasileiros e internacionais.

Como era de esperar, a inauguração da escola, em janeiro, foi motivo de escândalo e chacota por parte dos setores mais reacionários da mídia nacional, que mais uma vez se valeram de porta-vozes recentemente convertidos ao credo neoliberal. Eles devem mesmo se sentir ameaçados. Um dos pilares de sustentação da estrutura social baseada na tradicional divisão em casa-grande e senzala é precisamente o abismo que separa os intelectuais das camadas populares. O “povão” sempre foi mantido a distância dos centros produtores do saber. A elite brasileira sempre foi muito eficaz e inteligente a esse respeito. Conseguiu até a proeza de criar no país uma universidade pública (apenas em 1934, isto é, 434 anos após a chegada de Cabral) destinada a excluir os pobres. Como afirma o professor Roberto Romano, em memorável entrevista concedida a Caros Amigos, ao ser indagado sobre a existência ou não de uma universidade pública no Brasil:

“Existe o princípio da universidade pública, uma tradição anterior de universidade pública, mas paradoxalmente excludente. Aí precisamos discutir um pouco melhor o projeto da Universidade de São Paulo. Gosto sempre de lembrar que a USP tem uma origem hedionda. Gosto sempre de citar o texto do Júlio de Mesquita Filho, quando ele diz que a USP, que a universidade deve ser, no organismo social, o que o cérebro é no corpo. E que a função da universidade é estabelecer a disciplina na mentalidade popular. Mas duas páginas depois ele diz: ‘Nós temos que cuidar muito do organismo político brasileiro, e não podemos dar direito de voto a determinadas regiões’ – como a nordestina etc. – ‘porque o organismo brasileiro é meio teratológico, cresceu de um lado e não se desenvolveu em outro. (...) Ocorreu na sociedade brasileira um problema seriíssimo, foi incorporada à cidadania a massa impura e formidável de 2 milhões de negros, que fizeram baixar o nível da nacionalidade, na mesma proporção da mescla operada’. Vou morrer com essa frase decorada. Então, está dado o programa. Está claro?”

Claríssimo. Júlio de Mesquita Filho, diretor de O Estado de S. Paulo entre 1927 (após a morte do pai e fundador do jornal) e 1969, quando faleceu, é hoje aclamado pela historiografia oficial como intelectual impecável e impulsionador da universidade pública brasileira (empresta o nome à Universidade Estadual de São Paulo, Unesp). Como é possível associar tal imagem a um sujeito que articulou ativamente o golpe de 1964 e que odiava “a massa impura e formidável de 2 milhões de negros, que fizeram baixar o nível da nacionalidade, na mesma proporção da mescla operada”? O professor Roberto Schwartz explica: são as “idéias fora de lugar”, mecanismo perverso de construção da mentalidade ideológica em um país cuja elite tem o cérebro europeu e as mãos crispadas no cabo da chibata com a qual vão golpear o dorso dos escravos (ou do zé-povinho). Para tais “intelectuais”, nunca houve qualquer contradição entre os ideais iluministas de 1789 e o estatuto da casa-grande. Ao contrário, nota Schwartz: alguns senhores de engenho chegavam a atribuir ao regime escravista o mérito de permitir aos seus filhos receberem as “luzes” na Europa.