Memória do Saqueio traz Solanas de volta ao documentário
Por Cristian Cancino
Antes de iniciar a projeção de Memória do Saqueio, Fernando Solanas, que esteve no Brasil para a pré-estréia do filme, no Espaço Unibanco de Cinema, concluiu sua apresentação do documentário com: “não vou dizer a vocês ‘diviertanse con la película’, porque se trata de una tragedia”. A tragédia é secular.
Seu início simbólico é o pacto feito por Rivadavia em 1825 com um grupo inglês, que inicia o endividando do Estado argentino com organismos internacionais de crédito. O cume da “venda do país” ocorre nos anos 90 do século 20 com Carlos Menem e seu ministro de Economia, Domingo Cavallo, que negociam a YPC, a empresa de petróleo nacional, entregando o “ouro negro” para as mãos de grupos privados estrangeiros.
Diz-se no filme: “a Argentina é o único país do mundo que entrega seu petróleo sem ter perdido uma guerra”. A Petrobrás, maior financiadora do cinema brasileiro, comprou parte desse patrimônio com um valor dez vezes menor que o estipulado pelo mercado. “Mafiocracia” é o título do esquete que explica a transação. A conseqüência da “venda do país” gera anualmente 30 mil mortos pela fome e pobreza no período final da década de 90.
Memória do Saqueio é um filme de urgente lucidez. “Es para explicar lo que a passado, casi didactico.” E abre uma brecha, “la primera victoria de Argentina contra la globalización” foi a derrubada do presidente De La Rua em dezembro de 2001, quando a sociedade eclodiu em revolta pela capital federal, revertendo em parte a “venda irrestrita do país”. Abaixo, trechos da entrevista que Solanas concedeu ao site OEAL.
Qual a relação entre La Hora de Los Hornos, de 1968, com este Memória do Saqueio?
Com La Hora de Los Hornos comecei a investigar uma maneira de fazer um cinema testemunhal equivalente ao ensaio, o ensaio histórico, sociológico, político. Dividido em capítulos, com muita especulação com a montagem, para que uma montagem de contraposições resultasse em idéias, a utilização de títulos, que é algo que sempre gostei por causa do cinema mudo. Por isso há uma boa homenagem ao cinema mudo. Citações de outros filmes... 35 anos depois fiz estas Memórias do Saqueio continuando esse tipo de busca. Obviamente, este filme analisa a catástrofe neoliberal da Argentina, as causas, procura dar uma explicação.
Mas não é só o testemunho, analisa as causas e as explica. Os meios de comunicação, não somente não explicaram mas consumiram isso tudo. Então o filme fica no equilíbrio entre o didático e o emocional cinematográfico. Essa foi a maior dificuldade de fazer este filme, porque de uma matéria tão abstrata é preciso inventar um fim, ao qual é preciso chegar a partir de uma progressão dramática, de um crescendo. E é uma dificuldade.
Quando você tem uma história de ação, com causas e efeitos, como são as história do cinema norte-americano é fácil. Quando o que você tem é a tentativa de expor um discurso de idéias, como em um livro, é mais dificultoso, então você tem que inventar o filme.
A idéia comum é que o documentário, ao tratar a verdade, deve se ater à realidade objetivamente. Como pensar o tratamento dramático da realidade, da miséria?
Eu não tenho nenhum pudor em dramatizar a miséria ou a realidade. La Hora de Los Hornos tentou utilizar todos os procedimentos do cinema. Algumas seqüências eram recriadas, outras são pura montagem, outras são imagens de arquivo, outras de pura ficção.
Na época de La Hora de Los Hornos vocês na Argentina assistiam a filmes do movimento documentarista brasileiro, como os feitos pelo que se chamou de Caravana Farkas, prospecções ao Brasil profundo e miserável?
O cinema documentário social iniciou-se na América Latina com Fernando Birri, na Escola de Santa Fé, com seu documentário Tire Dié. Em La Hora de Los Hornos eu faço homenagens aos grandes documentaristas que eu gostava. Há uma citação de Tire Dié, uma de Joris Ivens, O Céu e a Terra, e há uma citação a Leon Hirszman, de seu documentário Maioria Absoluta. Além do mais o diretor de produção de La Hora de Los Hornos foi o diretor de produção dos documentários que o Farkas fazia.
Você veio ao Brasil naquela época?
Não. Mas fui convidado e eu era amigo de Glauber Rocha, de Hirszman, de Joaquim Pedro de Andrade.
O Gerardo Vallejo contou uma historia de que o Glauber Rocha teria ido à Argentina para encontrar vocês, nos anos 70, de táxi. Em um táxi com placa do Rio de Janeiro. É verdade que ele foi de táxi para a Argentina?
De táxi? Não me lembro. Mas pode ser...
Memoria do Saqueio nasce da inquietude com a maneira como os países da América Latina seguiram o modelo proposto pelo FMI. O senhor acha que hoje o continente avançou no sentido de se livrar da dependência econômica, da submissão aos ditames de Washington?
Por exemplo, a Argentina me parece que avançou, não segue as ordens do FMI. Também não chegou a romper definitivamente. Mas começou a se independizar. Cada país é um caso particular.
O senhor está entusismado com Kirchner?
Em algumas coisas sim, em outras não. A política de direitos humanos me parece muito efetiva, e ele tem feito um bom papel frente ao FMI. Tem muitas coisas boas, mas em outras áreas ainda há problemas.
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