Dia de Festa no Cineclube Prestes Maia
Por Cristian Cancino
O Cineclube mostra documentários brasileiros todos os sábados na ocupação Prestes Maia, que fica na Avenida Prestes Maia, 911, Estação Luz do Metrô. Abaixo, leia análise da sessão de Dia de Festa em carta enviada a Graziela Kunst, documentarista do Centro de Mídia Independente.

Oi Grazi...
Olha só: como você supunha, foi uma festa. Festa em vários sentidos, acrítica por um lado, sem confronto de tensões, sem dissenso, semdebates inflamados; porém, um fenômeno se materializou: o encontro.
Sinceramente, compartilho em quase tudo com você sobre o que é este filme, Dia de Festa... O Guilherme, que me ajudou na logística do cineclube, emprestando o carro para a gente carregar o som, o dvd, a câmera, essas coisas, definiu Dia de Festa como filme pra inglês ver. Está lá: "A Favela"; "O Cortiço"; "A Rua; "A Ocupação"... Didatismo pertinente para as platéias francesas, onde o filme será exibido via cabo, segundo o Pablo e o Toni... E concordo. É festa pra inglês (ou francês, no caso).
Acho que o filme entrega isso logo no início, quando em meio às panorâmicas do centro, exacerbado em sua exuberância de pedra (planos-clichês, e estritamente funcionais, da vastidão de prédios vista do alto), surge a figura do artista popular, que oferece sua arte e arrisca sua vida pelos trocados da caridade transeunte. É uma metáfora que revela um código: a partir de agora, deste preâmbulo visual impactante pros de fora (mas que para os de dentro nada acrescenta e nenhuma percepção renova), será oferecido o banquete da miséria, da arrogância coercitiva da polícia, das injustiças latentes, do homem que tem que se tornar malabarista para ocupar a rua e conseguir o pão.
E, a partir da leitura do código representado pelo artista da Praça da Sé, apreenderemos as personagens: oferece-se a história das sem-teto que se transmutam em "malabaristas revolucionárias" pelo desejo de justiça, empregando senhas, trejeitos e doando o corpo ao sacrifício coletivo. Mas, para quem se oferece esse teatro exemplar de um roteiro tão comum (comum, pois essas mulheres têm histórias de dificuldades na infância, de ter de trabalhar desde cedo, de terem filhos, maridos, separações... vidas comuns, até se revelar que houve um chamado que lhes modificou a vida, o chamado da causa coletiva, da luta pela moradia)?
Bom, arrisco dizer que se oferece ao entendimento embotado do expectador passivo. Como dizia o cubano Tomás Gutierrez Alea, o espetáculo (cinema) deve ser "socialmente produtivo" no sentido de, como dizia o Antonin Artaud, "sacudir a consciência pública". E este filme, que inicia com mulheres comuns que se transformam para a luta, que de repente despertam da noite da apatia, percorre exemplarmente a jornada do herói, código secreto do cinema americano. Isto é: um protagonista (no caso aqui são quatro), estacado em sua normalidade, recebe um chamado (a luta para reverter sua condição social); ele parte para a jornada (as ações de ocupação); ele (elas) superam obstáculos (a polícia, o oficial de justiça, a resistência dentro das ocupações); elas triunfam e ganham o elixir (a ocupação, da Rua Tobias, que é legalizada, e, no caso das outras personagens, o elixir que lhes resta é a consciência de que "a luta continua" e de que "nunca se deve abandonar o sonho", nas palavras da Anete).
Bom, a exemplo dos planos-clichê iniciais da cidade (que não renovam a percepção do espaço concreto no enquadramento das imagens), o roteiro deságua nesta impressão de conformismo, que é alento pra platéias, comunicando aos expectadores a regra geral da vida heróica e exemplar, livre do risco das ambiguidades, numa pasmaceira subserviente à condição passiva do público - que é um outro, que observa a tudo intimamente como se fosse invisível dentro do quadro, do espetáculo, preservado em seu anonimato, portanto distante, portanto outro, sem a possibilidade da participação mística com a realidade coletiva comum.
Além disso, minha percepção é de que as imagens de ações, como a do INSS, tão valorizada em À Margem do Concreto, estão diluídas, são salpicadas pelo caminho proposto pelo roteiro, que é o de o filme acompanhar seus personagens e procurar, assim, a apreensão de suas tensões, humanizando-os ao paroxismo (que chegará ao choro).
Emblemático, se formos ainda na linha de comparar os dois filmes, é que em À Margem do Concreto a câmera entra como mais uma "invasora" nos prédios ocupados, registrando o lado de dentro no instante dos estampidos de bombas, os rostos apreensivos dos ocupantes, o choro das crianças amedrontadas, todos seus cúmplices (a câmera é um ocupante).
Em Dia de Festa, por outra, a câmera fica do lado de fora. O ponto de vista de Dia de Festa, assim, mantém a legalidade, o distanciamento e, por vezes, até escolhe um cúmplice sinistro: o policial (que não deixa de ser outro humano). Isso pode funcionar para o bem ou para o mal...
Bom, por fim, já que isto não é necessariamente uma crítica do filme, mas uma espécie de tentativa de refletir o porquê da escolha deste filme, em resposta a tuas dúvidas e inquietações, Grazi, queria dizer duas coisas. Na verdade, vou reproduzir comentários da Jomarina e do Seu Mário (o "líder" dos bolivianos do sexto andar). No debate, a Jo contou para o Pablo Giorgeff (o co-diretor do filme) que, enquanto aguardava a tal "ocupação do cinema" em frente ao Cinesesc, quinta-feira, uma senhora se aproximou dela para abraçá-la.
Era a ex-patroa da Jomarina, elas não se viam há anos. Mas a tal ex-patroa acompanhou a história da Prestes Maia na mídia, do próprio filme etc. Ou seja, seguia a vida da Jo e o filme também possibilitou esse encontro. E mais, o episódio desse encontro e de tudo que tem acontecido nestes anos de ocupação transformou a Jô (no entendimento da ex-patroa): a Jô deixou de ser sua ex-doméstica e virou seu fetiche. Eis o poder do cinema (e da mídia, numa certa medida). A transformação do tabu em tótem...?
Segunda coisa. O seu Mário perguntou ao Pablo: "Eu não entendo. Esse pessoal (nós, os artistas, os ocupantes de baixo...) vive aqui, eles vão e batem na porta de nossas casas pra chamar a gente pra ver o flme, pra participar de atividades, eles ficam aqui e montam biblioteca, fazem a sua arte. Me diga, quem é que dá de comer para essas pessoas? Como você ganha seu sustento?" Não ouvi o que o Pablo respondeu porque minha admiração com a consciência do seu Mário falava mais alto. Ele sabe, assim como nós, o quão diferente somos (e sabe como é bom, apesar dessa diferença, estarmos juntos). Então a consciência do fosso entre uns e outros é atroz, constatação de abismos... Saber disso já é um começo. Se o filme chega ou não a passar essa consciência, ainda não descobri...
E é isso aí...
Bom que você vai ver A Batalha do Chile, do Patrício Guzman. Só vi o terceiro episódio de A Batalha do Chile, gostei muito e me fez sofrer e me fez, principalmente, ter revolta. Revolta, isso é o que falta na festa dos auto-proclamados Sem-Tela do cinema nacional...
Beijo!
28/04/05
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