Na festa do progresso, o Benedito é que foi preso.
a) ocorrência
As manchetes dos jornais paulistanos no dia seguinte às comemorações do 454º aniversário da cidade não foram festivas. A notícia do dia foi a de que o morador de rua Benedito de Oliveira, embriagado, feriu 3 pessoas na missa de celebração na Catedral da Sé. O incidente ocorreu a dois metros da área em que se encontravam o prefeito Gilberto Kassab, o secretário e subprefeito Andrea Matarazzo, os ministros Luiz Marinho (Previdência) e Carlos Lupi (Trabalho), o presidente da Assembléia Legislativa, deputado Vaz Lima (PSDB), o secretário da Segurança, Ronaldo Marzagão, e os senadores Eduardo Suplicy (PT) e Romeu Tuma (PTB). Benedito teria começado a gritar palavras como “São Paulo mata eu! Eu não quero morrer de fome.” Os seguranças trataram de retirá-lo da missa. Ele teria reagido com uma faca, quando feriu três pessoas, na mão. Foi levado ao 1º Distrito Policial de São Paulo e indiciado por tentativa de homicídio. Como já tem passagem pela policia, sua situação é bastante complicada.
Benedito de Oliveira é também Benedito do Pagode, compositor e intérprete de samba. É conhecido entre moradores e trabalhadores do centro por composições como “Olha o rapa!”, “O Apagão do Momento” e “Copa do Mundo - Rumo ao Penta!”, pois com sua garganta de invejável potencia vocal costuma divertir as pessoas em praças públicas. Foi a partir destas apresentações que Benedito foi convidado ao programa televisivo da Rede Globo Caldeirão do Huck, em 2005. Ali, chamou atenção por sua qualidade como cantor e por seu carisma com o público. Cantou, dançou e fez subir a audiência da emissora. Sua prova final no programa de entretenimento para as tardes de sábado era arremesso de bola de tênis a latas empilhadas. A seu lado, na mesa de convidados que participavam do programa, estava nada mais nada menos que aquele que é talvez o mais importante nome vivo do samba, Martinho da Vila. Benedito conta que nos bastidores a produção o orientou a treinar e ele não errou nenhum arremesso. Mas, quando chegou a hora da prova, ao vivo em rede nacional, ele errou. Não derrubou o número suficiente de latas e perdeu o prêmio de 10 mil reais. Para ele, que nunca conheceu nem seu pai e nem sua mãe, que foi criado em orfanatos e na FEBEM e tem uma vida difícil nas pensões e muitas vezes dormindo nas ruas do centro de São Paulo, 10 mil era muito. Seu grande êxito no entanto foi cantar ao lado de Martinho da Vila, os dois juntos interpretaram Madalena do Jucú (veja o vídeo), naquele que seria seu momento de consagração por ganhar 10 mil reais. Como, ao que parece, a própria produção do programa se surpreendeu com a falta de alvo do sambista e sua conseqüente perda do prêmio, resolveram lhe dar um prêmio de consolação. Benedito foi convidado a participar do CD da cantora Vanessa Jackson, vencedora do programa musical Fama, também da Rede Globo.
O sambista conta que em janeiro de 2008 foi ao Rio de Janeiro, à Som Livre, receber sua parte pelas vendas do CD da grande gravadora no ano de 2007. Recebeu absurdos sete reais. Quando chegou de volta a São Paulo, sem dinheiro, foi despejado da pensão onde vivia. Benedito outra vez estava na rua. Seu ato durante a missa de celebração do aniversário da cidade foi um grito de desespero contra a fome e a indiferença. Não falava apenas por si, mas pelos milhões de sem-teto, desempregados, nordestinos, negros, marginalizados que se espalham pela cidade. Gritou a apenas 2 metros do prefeito da cidade e demais autoridades. Gritou, mas parece que não foi ouvido. Para a sociedade paulistana trata-se de apenas mais um bêbado, louco, e criminoso. Domingo, no SESC Ipiranga foi projetado o documentário Um Dia de Samba, gravado em 2002 sobre a cena do samba no centro de São Paulo (veja o vídeo). O público ficou impressionado com o Benedito e a cena final do documentário, onde ele rende uma homenagem à cidade. Contradição? E agora, o que restará? O Lamento Paulista? Esse documentário, ainda em fase de finalização, onde Benedito é uma das vozes da narrativa, fala sobre violência urbana, e alguns desses problemas que a sociedade paulista prefere não debater.
Por Pedro Dantas, documentarista.
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b) homenagem
Uma missa ecumênica na Sé, marco zero, shows pela cidade patrocinados pela prefeitura, o tradicional bolo de aniversário devorado em segundos, capas de revistas e publicidade oficial agradecendo São Paulo por tantas oportunidades, tanto dinheiro, tanta fartura, tantos serviços, tanta cultura, tantas promessas, tanta avenida, tanto progresso. Em meio à balbúrdia mídiatica e festiva, a nota negra: Homem invade missa de aniversário com faca e fere três.
O homem, no caso, é o Benedito, artista de rua, sucesso entre os camelôs da cidade, figura quase ornamental, tonitroante, parceiro artístico que canta sambas com seu cavaco e no gogó poderoso; enfim, talento marginal, dessas figuras que compõe com humanidade extravagante a paisagem de pedras, lanças, grades, câmeras, policiais, famélicos e viciados do centro de São Paulo.
Aquele centro, tão íntimo em rejeições e afagos para o Benedito, não é mais o centro dele. Agora o centro é para a classe média consumidora, centro cujo projeto de revitalização está fundamentado em sua higienização, centro visto de cima ou através de esquemas que o explicam organicamente, ongani-cidade. Quando na real todo ser humano percebe a cidade desde a perspectiva de seu locus de enraizamento, a partir do qual a cidade e o espaço público adquirem seu sentido. Nessa análise, então, o centro de transitoriedade, o centro que com sua arquitetura excludente não permite a permanência do sujeito urbano, passa a ser ostensivo, cru, centro centrífugo. E o Benedito, cronista teimoso, estaca-se por entre os passantes tonitroando ao cavaco seus sambas, expressando acontecimentos da vida pública, como a perseguição aos camelôs em O Rapa, a copa do mundo em Rumo ao Penta, os atentados terroristas mais recentes em Apocalipse, os ataques do PCC e a reação da polícia que matou 400 e tantos suspeitos em O Comando do Sistema. O Benedito, artista de rua, num palco que é expulsivo...
Ele gritou: Mata eu São Paulo, porque eu não quero morrer de fome. Ato-limite ou embriaguez no cerne da cidade, no marco zero? Agora vão qualificá-lo no prontuário, ameaça pública. É preciso estar atento porque este ato-deslize de conduta também é utilizado, de certa maneira, para criminalizar o povo de rua da cidade. Lúcida seria a declaração do rabino Henry Sobel. Ele ficou convencido depois do episódio que o grande problema de São Paulo é a segurança, “É necessário colocar mais polícia nas ruas”. No entanto, grande ironia, há exatamente dois meses o Benedito participou conosco de uma performance na galeria Olido, atual sede também da Secretaria de Cultura do Estado. Nossa apresentação foi no mesmo dia em que o governador José Serra entregava à cidade centenas de novas viaturas e policiais. Ele disse: “Estou orgulhoso da nossa policia, que é a terceira maior força armada da América Latina”. Henry Sobel está desinformado, mais uma vez. Polícia e corrupção é o que não falta na cidade enquanto punguear é projeto de Estado.
Enfim, tenho estima pelo Benedito porque ele é meu parceiro artístico. Fizemos um documentário em que ele é protagonista de uma história do samba paulistano que não se conhece. E desde então sabemos da luta dele contra a ostensividade maquínica que mantêm a cidade nos trilhos de seu projeto desenvolvimentista ao preço da criminalização das diversidades, da vagabundagem, da aparente estagnação contemplativa. O que o redime sempre é que o Benedito não se vitimiza, muito embora saibamos que ele poderia, quiçá, ser qualificado (nesse esforço estúpido e constante de buscar qualificações e termos definidores, racionalizantes ou positivistas) como uma vitima de uma indústria de ilusões. Como ocorreu quando foi ao programa do Luciano Huck e saiu de lá sem levar nenhum. Era a chance da vida dele? Sobrou, no entanto, o Mata eu São Paulo. E essa é a história que vai ser contada pelas tevês, nas salas das casas protegidas, nos condomínios que enjaulam a felicidade e protegem festivas famílias, consumidores de opiniões e padrões. Benedito é só o homem que entrou na Sé e pediu pra ser morto com uma faca numa mão e um cavaco na outra.
Por Cristian Cancino, documentarista |